APOSTAS REPRESENTANTE DO BRASIL OSCAR 2018

Por Eduardo Pepe

 

Vinte e três filmes se inscreveram para ser o representante do Brasil no Oscar e nessa sexta, 15, será anunciado o resultado

Ano passado foi selecionado “Pequeno Segredo”, de David Shurman. A escolha acabou se mostrando fracassada, porque além não ter sido selecionado, o filme não conseguiu nenhuma carreira no exterior não estreando em nenhum país além do Brasil e nem ao menos foi selecionado para sequer um festival internacional. Tão pouco conseguiu atrair atenção da imprensa internacional que não comentou sobre o filme. Bom, mas voltando a esse ano dos 23 inscritos se destacam 13 títulos. O resto parece está só ocupando espaço. Comentarei os méritos e as chances de cada um dos que se destacam.

Um dos mais comentados pela imprensa é “Bingo – O Rei das Manhãs” (em cartaz). Ele é dirigido por um editor de filmes internacionais como “Diários de Motocicleta” e “A Árvore da Vida” e até foi nomeado ao Oscar na categoria por “Cidade de Deus”.  O personagem Bozo é uma marca americana e conhecida por lá, porém a trama de um ator que interpretou o personagem é completamente desconhecida, o que pode gerar interesse ou não. Vai depender muito do burburinho que a imprensa fizer sobre o filme. Entretanto, a imprensa brasileira aclamou o filme por sua recriação de época e excelência de direção, além das atuações do elenco. Entretanto, seu estilo subversivo não é muito associado a imagem estereotipada que as pessoas têm do “filme de Oscar”, o que pode afastar os votantes da comissão. Outro fator que complica é a falta de carreira internacional do filme. Se escolhido, “Bingo” seria um tiro no escuro em termos de recepção internacional.

Outro muito comentado é “Como Nossos Pais” (em cartaz), da Laís Bodansky. O maior trunfo do filme é a boa recepção da crítica internacional que encheu o filme de elogios, em especial, para a performance de Maria Ribeiro no papel principal. O longa começou sua carreira no festival de Berlim e também passou pelo festival de Paris de Cinema Brasileiro, onde saiu vitorioso. No Brasil, também tem trajetória boa tendo vencido 6 prêmios no festival de Gramado, incluindo, Melhor Filme e Direção. Outro trunfo do filme é sua trama descrita pela revista americana Variety como “uma história calorosa e universal”, ou seja, de fácil identificação e apelo internacional, afinal, fala da vida da mulher moderna tendo dupla jornada e em crise no casamento, na vida profissional e às voltas na relação com a mãe. Um assunto de fato global. Além do mais, também está entre os favoritos da imprensa nacional.

“O Filme da Minha Vida” (em cartaz), de Selton Mello, vem logo atrás nos bolos de apostas. O diretor Selton Mello está fazendo uma campanha forte para o filme e não só de divulgação como também para ser o escolhido pela comissão. Bem recebido pela crítica, o filme tem sua trama baseada em um romance do escritor chileno Antonio Skármeta (que foi adaptado no cinema em “O Carteiro e O Poeta”, vencedor de um Oscar) e tem o ator francês Vincent Cassel entre os personagens principais do elenco. Um forte candidato a ser selecionado.  

Na sucessão na linha de apostas está “Policia Federal – A Lei é para Todos” (em cartaz). Diferente dos outros, não está aqui por méritos artísticos e/ou de campanha. É mais uma questão política. A ideia é que o assunto do momento (a operação Lava-Jato) atraia atenções para o longa e ele consiga se projetar internacionalmente. Entretanto, isso é uma ideia improvável vendo a completa falta de carreira internacional do filme e a má recepção da imprensa brasileira. Considerado um filme de suspense sem nuances ou profundidade, não parece haver espaço para um filme desse tipo na disputa do Oscar de Filme Estrangeiro, que gira em sua maioria por longas entre os mais premiados e elogiados pela imprensa internacional do ano. Ainda que seus realizadores o intitulem como imparciais, ele é visto como um filme “querido” do governo, o que torna sua candidatura possível. Vale destacar também o bom desempenho do filme nas bilheterias, outra vantagem do longa.

“Divinas Divas” (disponível em plataformas digitais), de Leandra Leal, é o documentário mais bem-sucedido do ano. Além de críticas muito boas, conseguiu prêmios do público no festival do Rio e no americano SXSW Film Festival, centrado em filmes independentes. O assunto é a vida e obra de artistas trasvestis e transexuais que foram pioneiras no Brasil. Ainda que já tenha acontecido de um documentário concorrer na categoria de filme estrangeiro, é mais comum o país escolhe-lo com a ideia de atrair visibilidade para a categoria de documentário. Ano passado, o candidato da Itália “Fogo No Mar” não foi indicado a Filme Estrangeiro, mas foi lembrado na categoria de documentário. Entretanto, a corrida de documentário é tão ou mesmo mais concorrida que a de filme estrangeiro, além de exigir que o filme estreie comercialmente até o fim do ano nos Estados Unidos para ser elegível.

“Joaquim” (disponível em plataformas digitais), de Marcelo Gomes, concorreu ao Urso de Ouro, principal competição do evento, no Festival de Berlim, aborda a vida pregressa de Tiradentes antes dele virar inconfidente, tem uma reconstrução de época notável e um visual belíssimo. Em tese seria um forte candidato, mas vem sendo pouco comentado muito porque estreou no inicio do ano e por ter gerado pouco buzz no festival, apesar da recepção, no geral, positiva. “Como Nossos Pais”, por exemplo, mesmo não estando na mostra principal, acabou chamando bem mais atenção da imprensa quando ambos passaram por Berlim.  

Premiado em Guadalajara e LA Outfest e indicado no festival de Rotterdam, “Corpo Elétrico” (em cartaz) recebeu bons elogios da crítica nacional e internacional por seu retrato humano, sensível e despudorado da classe proletariada brasileira, em especial, a LGBT. Como filme libertário e despretensioso em termos narrativos, vem sendo pouco comentado para ser escolhido, mas nem por isso deixa de ser um dos mais elogiados do ano.  

Premiado pelo público e crítica no festival do Rio e também em San Sebastian, “Era o Hotel Cambridge” (disponível em plataformas digitais) é o novo e aclamado filme da Eliane Café. O longa aborda um grupo e que mora em um prédio abandonado e que passam a ser assombrados com o aviso de uma futura reintegração de posse anunciada pela prefeitura. Unidos politicamente, eles decidem que irão resistir e protestar. Com muita humanidade e sensibilidade, o filme mistura ficção e documentário ao misturar atores com pessoas que interpretam a si mesmos. Uma verdadeira pérola que se fosse escolhida não seria má escolha. Entretanto, é um filme claramente político, o que deve afastar o comitê de olhar mais para ele.

“Fala Comigo” é um polêmico filme sobre o relacionamento que surge de maneira improvável entre um adolescente e uma mulher mais velha. Primando por representar complexas relações modernas e não fazer julgamentos morais, o longa é um romance dramático diferente do habitual e que costuma suscitar relações das mais variadas com relação a história, desde pessoas vibrando pelo casal como os que torcem para a sua dissolução. Premiado como Melhor Filme e Atriz (Karine Teles) no Festiva do Rio, seria uma aposta arriscada, ainda que artisticamente válida.   

Entre as cinebiografias, estão “Elis” (disponível em plataformas digitais), de Hugo Prata, que retrata a vida da cantora Elis Regina, e “João, O Maestro” (em cartaz), de Mauro Lima, sobre a vida do músico João Carlos Martins. Ambas personalidades de certa relevância internacional. O primeiro teve uma boa bilheteria, foi premiado em Gramado, Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e APCA e recebeu críticas moderadamente boas, destacando o talento do elenco, em especial, o de Andrea Horta no papel título. O segundo recebeu críticas mornas e teve um desempenho pouco notável nas bilheterias. Entretanto, ambos são supostamente dentro de um padrão hollywoodiano, o que pode fortalecer a escolha de um deles caso o comitê tenha uma escolha mais conservadora.

E, por fim, vale destacar dois filmes ainda inéditos; “Vazante”, da Daniela Thomas, codiretora de filmes premiados como “Linha de Passe” e “Terra Estrangeira”, e “Gabriel e a Montanha”, de Felipe Barbosa, que se inscreveram, mas permanecem inéditos nos cinemas. Ambos têm estreia planejada para novembro, mas caso sejam escolhidos terão que adiantar a estreia para esse mês, porque a academia exige que o filme escolhido estreie em seu país de origem até o fim de setembro. O longa de Daniela Thomas passou no festival de Berlim, se passa na época da escravidão e foi considerado um filme experimental que resultou em reações variadas da crítica, já o de Felipe Barbosa foi premiado na Semana da Crítica no Festival de Cannes e arrancou fortes elogios em sua passagem pelo maior festival do mundo.

Os outros filmes inscritos:

 

Por Trás do Céu

Real – A História por Trás da História

História antes da História

Cidades Fantasmas

Café – Um Dedo de Prosa

Quem é Primavera das Neves

La Vingança

A Familia Diondi

A Gloria e A Graça

Malasartes e o Duelo com a Morte

 

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Eu votaria em: “Como Nossos Pais”

Outras escolhas que consideraria muito boas também: “Bingo – O Rei das Manhãs”, “Gabriel e a Montanha” e “Era o Hotel Cambridge”

Vai ser escolhido: “Como Nossos Pais”

Quem tem mais chances de surpreender: “O Filme da Minha Vida”, “Bingo – O Rei das Manhãs”, “Gabriel e a Montanha”, “Elis”, “Polícia Federal – A Lei é Para Todos”, “Divinas Divas”

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