AÇÚCAR: “RETRATA DE FORMA SOMBRIA E ONÍRICA TENSÃO DA CASA GRANDE E SENZALA NA ATUALIDADE”

Por Eduardo Pepe  

 Já não é mais novidade que o cinema pernambucano é o mais produtivo em termos de cinema independente nacional. “Açúcar” é mais um representante desse inquietante e heterogêneo cinema. Na trama, Bethânia (Maeve Jinkings) volta para o engenho de sua família para reergue-lo e impedir que ele seja vendido, invadido ou se deteriorasse. Ela contrata uma faxineira (Dandara de Moraes) para lhe ajudar nessa tarefa e recebe a visita da madrinha (Magali Biff) que vem em tese para lhe dar apoio. O conflito vem quando a protagonista começa a perceber que os velhos hábitos que tinha não são mais aceitos pelos moradores da região e que ela terá muito mais dificuldades do que imagina.

Maeve Jinkings e Magali Biff: Relação ambígua

Os diretores Renata Ribeiro e Sérgio Oliveira filmam tudo alternando entre dois tons; um realismo duro em que as diferenças sociais e raciais entre os personagens são externalizados através de diálogos hora ácidos, hora secos e outros momentos em que o filme parece viver no inconsciente da personagem, cercado de muito medo e um ar sombrio flertando com uma atmosfera de pesadelo.

O resultado é um filme que pouco a pouco vai construindo seus dilemas se calcando sobretudo na construção estética da atmosfera que vivem os personagens, todos cercados de muitos silêncios. Se o ritmo parece arrastado demais inicialmente, as coisas esquentam na disputa simbólica entre os personagens, com o auge sendo a noite em que ocorre a festa da protagonista pontuada por interpretações de destaque de todos os atores, em especial, Maeve Jinkings, que vem se mostrando uma das atrizes de cinema mais talentosas de sua geração, e Dandara de Moraes no papel da jovem que não se rebaixa. Vale destacar também Magali Biff que alterna dureza e doçura com sutileza e competência além de destilar veneno na hipocrisia de sua personagem.

Maeve Jinkings vive pesadelo em “Açúcar”

O ponto fraco está na construção da preparação para o desfecho, que parece acontecer um tanto quanto apressado. Depois de um inicio meticulosamente construído, a saga da personagem parece chegar a extremos rápido demais. Apesar de visualmente ser impactante, fica a sensação de que o arco dramático da personagem poderia ser mais bem desenvolvido para dar mais suporte aos atos da personagem. Ainda assim, é mais uma prova da inventividade do cinema pernambucano em abordar as tensões ainda existentes entre as diferentes classes sociais e suas heranças da época escravocrata.

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